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10/03/2026  - Otelo e o Feminicídio
 
Izabella Pacheco Coelho, servidora do
MPMT. Artigo veiculado originariamente no
site do MPMT.


Este ano decidi ler as 38 peças de William
Shakespeare.

Quando comecei Otelo, imaginei encontrar
apenas uma tragédia sobre ciúme e vingança:
um homem manipulado por Iago que, tomado pela
desconfiança, mata sua esposa, Desdêmona.

Mas a peça é mais profunda do que isso. Ela
não é apenas sobre o ciúme de um homem ou a
manipulação de outro. Ela é, sobretudo, sobre
poder.

Sobre quem pode falar.

Sobre quem é ouvido.

E sobre quem paga o preço quando a honra
masculina se sente ameaçada.

Desdêmona não tem voz. E, quando tenta falar,
sua palavra pesa menos do que a de Iago — o
“amigo” que manipula, insinua e envenena,
movido pelo desejo de se vingar de Otelo.

Ela se explica, nega, implora. Mas ninguém
realmente a escuta.

Porque, no fundo, nunca se tratou da verdade
dela — tratava-se da honra dele.

Em determinado momento, Otelo a agride diante
de todos. Entre os presentes está Ludovico,
tio de Desdêmona, um homem de prestígio e
posição social, que poderia intervir e
protegê-la. Mas não o faz. Limita-se a
assistir. Alguém que “viu e pouco falou sobre
os tristes acontecimentos”.

Ninguém a defende.

Ninguém se levanta.

Ninguém o interrompe.

O silêncio coletivo também participa da
tragédia.

Emília, amiga de Desdêmona, ainda tenta
reagir. Questiona, se desespera, confronta.
Mas Emília também é ignorada.

Porque, naquele mundo — como em tantos outros
— a palavra de uma mulher valia pouco. E a
palavra de duas mulheres valia menos ainda.

Pode parecer algo distante, típico do século
XVII. Mas não é.

Quando Desdêmona é brutalmente assassinada
por Otelo, surge uma das poucas vozes que
denunciam o absurdo da situação. Emília, ao
descobrir o que aconteceu, confronta Otelo e
diz:

“O senhor matou uma mulher inocente e tola,
cujo único erro foi a escolha que fez ao
apaixonar-se por você, seu estúpido! Como
pode ser tão ignorante e cego?”

Mas já era tarde demais. Desdêmona estava
morta.

Do acontecimento restam apenas três gritos de
indignação:

o de Emília, alto e inconformado; o de
Desdêmona — abafado pela morte; e o de Otelo,
tentando justificar sua própria crueldade:
“Digam o que quiserem, não me importo. Espero
que me considerem um assassino honrado, pois
foi pela honra, e não por ódio, que fiz o que
fiz.”

A honra. Essa palavra atravessa a peça
inteira. E, muitas vezes, atravessa também a
história das violências contra mulheres.

Mas há um detalhe ainda mais perturbador:
Otelo não é preso. Não é julgado. Não é
punido por ninguém.

Ele mesmo decide o próprio destino. Depois de
decidir sobre a vida de Desdêmona, decide
também sobre a própria morte: “Fale de mim
como realmente sou, sem exageros nem maldade.
Peço que, por generosidade, diga que amei
profundamente, ainda que com certa
imprudência, e que, por não saber lidar com
meu ciúme, fui arrastado a excessos que
acabaram por me levar à própria ruína,
tornando impossível continuar vivendo depois
disso.”

Ou seja: até o fim é ele quem escolhe. Ele
decide sobre a vida dela. E decide

também sobre a própria morte. Ela nunca teve
escolha.

E isso também soa assustadoramente atual.

No Brasil, mulheres continuam sendo mortas
por homens que acreditam ter poder sobre suas
vidas. Entre 2015 e 2025, mais de 13 mil
mulheres foram assassinadas em crimes de
feminicídio.

Homens que decidem se a mulher pode se
separar. Se pode seguir em frente. Se pode
continuar viva.

Homens que acreditam que o fim de uma relação
é uma ofensa imperdoável ao

próprio orgulho.

E, às vezes, a perversidade transborda: tiram
a vida dos próprios filhos - não por

amor, não por desespero — mas por covardia
deliberada de quem sacrifica outro

inocente para punir a mulher que ousou sair
do lugar que eles acreditavam ser dela.

A lógica é a mesma. Controle. Controle sobre
o corpo. Controle sobre a vida.

Controle sobre o destino.

Otelo decidiu que Desdêmona deveria morrer.

E, séculos depois, ainda há homens que
acreditam ter esse mesmo direito.

Os séculos passaram, mas a tragédia
permanece: agora não apenas escrita na

história, mas exposta ao vivo e a cores nas
redes sociais.

E, enquanto mulheres continuarem morrendo
para preservar a famigerada “honra” de
Otelos, Desdêmonas continuarão morrendo.
Emílias continuarão sendo ignoradas. E
Ludovicos continuarão assistindo silentes.

Que não sejamos Ludovicos.

Que protejamos Desdêmonas.

Que escutemos Emílias.

E que Otelos, finalmente, sejam devidamente
responsabilizados!

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